
Desde sempre que achei muito triste, crianças com óculos.
Lembro-me de achar tão estranho a minha colega Maria José da 1ª classe, usar óculos.
Nunca gostei nem usei óculos de sol. Tenho uns para conduzir e até isso não me dá jeito, nunca uso.
Mas, aprendi com um menino lindo de um blog que gosto muito de visitar que não é bem assim.
Aprendi que os óculos hoje em dia são um acessório de moda e que já não teem aquele peso de antigamente.
Hoje há muito por onde escolher, de todas as cores e lindos para as crianças.
Aprendi tudo isso e sinceramente acreditei.
Acreditei até ao momento em que levei a minha menina ao oftalmologista por causa de uma pequena alergia que a fazia piscar os olhos e ouvi as palavras
"...tem que usar óculos... estigmatismo... para usar sempre..."Olhei para ela.
Ela olhou para mim.
O meu coração chorou em prantos.
O meu rosto sorriu "feliz".
Na minha família nunca houve uma criança com óculos.
Nunca tinha havido.
Disse-lhe que havia óculos lindos e corremos várias ópticas só para ver.
Para ver, como quem percorre stands á procura do automóvel dos seus sonhos, como quem procura uma vestido para uma festa especial ou uma prenda de anos para alguém de quem se gosta.
Ver tudo, comparar tudo... tudo... menos o preço.
Ela andava feliz. Descobriu que também os havia com florinhas, do Júnior, da Barbie...
Foi uma tarde feliz e acabámos, depois de muito ver por chegar à óptica que eu queria, propositadamente deixada para última.
Só aí então apresentamos a receita médica para escolher uns.
Experimentou vários... várias vezes.
Escolheu, aqueles que ela quis, que ela adorou.
Não influenciei nem tentei faze-lo.
É ela quem se iria sentir bem ou mal com aquilo que gostasse ou não.
Cabia-me apenas ficar delirante e entusiasmada com a sua escolha.
Ficou triste por não ficarem logo disponíveis. e fez-me guardar segredo para fazer surpresa.
Nunca esquecerei o momento em que saímos da óptica de mão dada, com a sua carinha de óculos e sorriso feliz.
Eu também estava feliz, muito feliz mesmo, mas... só por fora.
Por dentro chorava desconsoladamente.
Á noite, ao deitar, abraçou-me feliz:
"Mamã, já tens mais um sonho realizado. Tens uma menina com óculos". E dormiu feliz, na absoluta certeza de que estávamos as duas felizes.
E eu... sozinha chorei.
Deixei cair todas as lágrimas retidas... todas as guardadas e mais algumas que surgiram então.
Um dia quando ela entender, que tipo de mãe pensará que tem?
Uma mãe que sonha em ter uma menina com problemas de vista?
Tenho medo desse dia, se e quando, na rebeldia da adolescência me fizer tal acusação.
Por enquanto... já lá vai quase um mês e continua a adorar os óculinhos.
E eu... eu continuo com o mesmo entusiasmo e alegria.
E por dentro... por dentro estou um pouquinho mais conformada e cada vez mais lembrando que o oftalmologista também disse
"...mas não se preocupem que isto não é nada de especial... é pouquinho... volta daqui a um ano... pode ser que deixe de precisar..."Pois... pode ser... ou pode não ser.
Hája saúde!